Nesta terça-feira (27/6), comemora-se o Dia do Artista Lírico, personagem central em óperas e corais. Ele é o responsável por unir o universo da música e do teatro. Desde 1992, o Ministério da Cultura (MinC) vem contribuindo para a formação de novos públicos e valorização deste gênero artístico teatral. Só por meio da lei de incentivo fiscal – Lei Rouanet – nos últimos 25 anos foram destinados cerca de R$ 84 milhões para a realização de óperas no País — uma média de R$ 5 milhões por ano nos últimos dez anos. Além disso, o MinC lançou editais e promoveu bienais de ópera por meio da Fundação Nacional de Artes (Funarte).

“Meu intuito é levar aos palcos, cada vez mais, o canto erudito produzido no Brasil”, Elmir Santos, barítono (Foto: Divulgação)

“No início desta década, experimentamos um crescimento no número de produções. Muitas realizadas por meio de orquestras sociais”, relata o baixo-barítono Lício Bruno, que este ano completa 29 anos de carreira. Em sua avaliação, o canto lírico não pode ser visto apenas como entretenimento, mas, sobretudo, como um importante fator de formação cultural. “O artista lírico não é apenas o solista, é também o coralista. As óperas e o canto lírico foram, no passado, erroneamente associados apenas à elite. No entanto, projetos sociais em comunidades carentes em diversos lugares do país como no Morro da Mangueira, têm revelado ao mundo novos talentos”, alerta.
Para Lício, que também atua como professor universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), o dia do artista lírico deve ser lembrado como uma oportunidade de repensar novos mecanismos de fomento cultural que assegurem novas formas de realizar a arte. “É preciso que todo esse trabalho tenha continuidade e muitos outros jovens tenham oportunidade entrar em contato com o universo da música lírica.”

Paixão pelo lírico

Primeiro barítono negro formado em música pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Elmir Santos se encantou pelas peculiaridades da música erudita brasileira composta por inúmeras influências. O interesse pelo canto lírico surgiu aos 10 anos de idade, quando Santos começou a participar do coral da prefeitura da cidade, formado somente por crianças da rede municipal de ensino. Anos mais tarde,chegou a estudar música popular na escola de música Bituca, em Barbacena, apadrinhada pelo cantor Milton Nascimento. Já na faculdade, ele manteve paralelamente ao estudo da música erudita um trabalho como cantor em uma banda de Black Music. “Desde sempre transitei entre os universos popular e erudito. Mas, o canto lírico é minha paixão. O que me encanta no repertório de músicas eruditas brasileiras é justamente essa mistura, que reflete a identidade do povo do nosso País, formado por negros, índios e europeus”, afirma.
Em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Santos apresentou um recital com o título As africanias como matriz da música brasileira e americana. “Durante minha apresentação, cantei apenas compositores que de alguma maneira utilizaram da matriz africana para compor suas músicas. Foram selecionadas peças de Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Waldemar Henrique e dos americanos Scott Joplin – autor de uma ópera com temática negra que tinha uma mulher como personagem central-, George Gershwin (Porgy and Bess), entre outros”, explica.
Para Elmir, a escolha do repertório do trabalho final era uma tentativa de colocar em evidência a música erudita brasileira, que ele considera muito esquecida. “Infelizmente, percebo um certo preconceito com o canto lírico. A música brasileira, a nossa essência, ainda não é cantada. Meu intuito é levar aos palcos, cada vez mais, o canto erudito produzido no Brasil. Compositores como Villa-Lobos, Francisco Mignone – que por muitos anos compôs balés e óperas enaltecendo nossa cultura-, precisam ser lembrados. Temos uma produção muito rica, que retrata a nossa história. Espero poder contribuir com a propagação da música erudita em nosso País”, enfatiza.

Miscigenada desde a origem

O pesquisador Herculano Lopes, da Fundação Casa de Rui Barbosa, que desenvolveu um trabalho sobre o teatro musical ligeiro, destaca a chegada da ópera no Brasil, desde as primeiras companhias vindas da Europa no século 19, cujas divas acabavam se envolvendo com gêneros populares.  “É importante lembrar que a noção atual de nacionalidade é distinta daquela do século 19. Naquela época, não havia uma separação tão rígida entre o erudito e o popular, mas, sim um esforço grande da elite em dar um ar europeu à arte no País”, pondera.
De acordo com Herculano, a ópera foi cultivada como um elemento de construção nacional no século 19. “Em dezembro de 1843, desembarcou no Brasil uma cantora lírica italiana chamada Augusta Candiani, que inicialmente era casada com o dono da companhia. Pouco depois ela deixou o marido para viver com um compositor de modinhas. Como a sociedade não aceitou a separação dela, Candiani seguiu pelo interior do País cantando modinhas”, conta.
No final do século 19, o movimento pela ópera nacional ganhou força, especialmente com o compositor Carlos Gomes, que trouxe como tema o escravo, o índio. Foi a inserção de um brasileiro no gênero universal. “Na virada do século 19 para o 20, voltamos à discussão do que é de fato nacional, um pouco como vemos hoje quando procuramos classificar, por exemplo, o que é o rock nacional. A ópera no Brasil também viveu essas transformações”, relata.
Texto e Fonte: Assessoria de Comunicação/Ministério da Cultura

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